Perdidos na localização

Usar isto como o título para o tema já está mais gasto que a Elsa Ra… talvez não, mas já o usei um número practicamente pornográfico de vezes. OK, só mais uma.

Uma coisa corrente há uns 10 anos era a queixa frequente sobre os jogos não possuírem manuais traduzidos, ou quando isso acontecia, serem no Português “do outro lado”. A situação foi-se lentamente alterando, mas a verdadeira “revolução” ocorreu com a abertura de escritórios de duas das maiores editoras (Electronic Arts e Infogrames, actualmente Atari) em Lisboa no final da década passada e o investimento da Porto Editora na distribuição de jogos em território nacional (com a label Playgames).

Os jogos passaram não só a ter os manuais devidamente traduzidos (ou, pelo menos, a um nível aceitável), tal como começaram a receber as suas próprias capas personalizadas (tal como é visível na capa do FIFA 99, com Rui Costa) , e mais tarde, o próprio conteúdo do jogo começou a ser traduzido. É certo que em algumas ocasiões a tradução era ainda “abrasileirada” (vide o caso do Ronaldo V-Football, embora esse seja completamente), e a tradução integral não era sequer algo inédito, mas eventualmente os jogos começaram a ter os menus em Português do sitio, e mais tarde, até os voice-overs do jogo eram traduzidos. E aqui se começa a traçar a linha entre “legendagem” e “dobragem”.

Legendagem para mim é quase obrigatória. Não por não perceber inglês, mas sim porque, tal como se costuma dizer, sou “lento de percebes”. Até podem ser legendas em inglês, mas prefiro sempre ter a muletazinha lá em baixo. Seja como for, se não tiver, desde que o som seja bom e não haja pronuncias obscuras pelo meio, até se faz o “sacrifício” (como tenho que fazer para ver episódios de Family Guy e American Dad um ou dois anos antes de passarem nas TV locais). Agora as dobragens, penso que começam a invadir o espaço (supostamente) sagrado que é a visão do autor sobre a sua obra. Se por um lado começar a falar de arte de jogos puramente comercias como os que vão servir de exemplo roça o absurdo, os problemas sobre a “visão artística” permanecem por outra forma.

Vamos começar pelo FIFA 2005. OK, vamos passar por cima da conversa que os Pro Evolution Soccer são melhores, já que essas conversas são completamente irrelevantes para o tema em questão. Anyway. Um jogo sólido, com uns modos de jogo interessantes e tal, mas um gravíssimo problema: a localização do jogo foi feita de um modo completamente deficiente, coisa que já vinha do seu antecessor. Para começar, é incrível (falando do antecessor) que alguem possa elogiar ter “comentários portugueses” e penalizar uma versão pela “ausência dos comentários de Jorge Perestrelo” numa review alegadamente profissional.

Mas o que é que este gajo está a falar, não gosta do Perestrelo etc” – Calma! Durante bastante tempo preferi ouvir os jogos na TSF do que ir ver o jogo na TV porque qualquer jogo ficava mais interessante com os comentários entusiasticos do Perestrelo e do Conduto do que a xaropada monocórdica do que os comentadores e respectivos convidados da Sport TV apresentam. O problema é outro – falando em video jogos, os comentários são quase invariavelmente programados para o estilo britânico – o completo oposto do Perestrelo, mas mais aproximado do Gabriel Alves (já lá vamos). Isso leva a diversos problemas, desde linhas que se nota que foram directamente traduzidas e estão out of character (como o Perestrelo referir o Grand Canyon – se ainda fosse o vale do Cuanza, Kizombo ou qualquer coisa do género) ou em golos seguidos por um comentário normal (“Guarda redes para um lado, bola para o outro, está lá dentro!” de Conduto, num registro bastante baixo) com um dos comentários mais entusiasticos (o famoso “É GOLO! É GOLO! É GOL É GOL É GOLO!” de Perestrelo) a surgir quando a bola já está a ser reposta no circulo central, é mais que perfeitamente audível que existem pelo menos três registros sonoros com volume completamente diferente e existem diversos bugs nos comentários (que podem originar e estar presentes na versão original, não vou abrir a caixa da versão inglesa só para comprovar… ou talvez vá) como calcular (muito) mal as contas de grupos e de classificação, o que leva normalmente o Cyber-Conduto a referir no mesmo jogo que falhar golos não importa que a equipa já está qualificada ou é campeã, mesmo que isso esteja muito longe da verdade.
Valha-nos o “Mas que perigo!” do Conduto. Se tivesse um daqueles telemóveis com toques MP3, acho que era isso que usava para SMS. Mas o problema é mesmo este: podem ser as vozes, mas não tem o toque pessoal, e actualmente um bom comentário não se pode resumir às catch-phrases (o que resultou bastante bem no Euro 96, mas há mais de 10 anos). Mas os problemas não acabam com as vozes. Algumas das strings de texto estão a faltar (como quando um jogador recusa a oferta de contrato no modo carreira), Outras Estão Escritas Como Se Fosse Uma Página Em HTML Com O Text-transform:capitalize, outras com traduções duvidosas (“Festas LAN” ?), e isto para não falar do problema com as posições. MD será Médio Defensivo ou Médio Direito?

Um bom exemplo de comentários vem no UEFA Challenge, cortesia do Gabriel Alves (sim, o homem que parecia que estava na Mir nas transmissões em directo do estádio do Chaves) e do José Manuel Delgado (nem digo mais nada). A verdade é que, tal como referido anteriormente, o estilo de Gabriel Alves está mais aproximado do estilo britânico, bastante mais pausado que o estilo radiofónico dos comentadores latinos (e sim, acho que ir buscar comentadores de rádio como o Perestrelo e o David Carvalho é um erro, embora esteja curioso sobre a performance do último no FIFA 07). Uma mistura de “Gabrielismos” como “não foi difícil, mas tambem não foi nada fácil” com comentários adequados às situações garante uma experiência mais próxima do “real” (pelo que a tecnologia permite) do que os comentários apresentados nos jogos da EA, apesar dos nomes serem mais sonantes, e certamente mais consensuais que no practicamente desconhecido jogo da Infogrames. Isto apesar dos habituais problemas de tradução (sim, acho que é daqueles que considera que “replay” é “voltar a jogar”) que traduzir directamente de um ficheiro de excel sem estar em contexto involve quase sempre.

Mas chega de jogos de futebol. Mais em cima referi a comparação entre legendagem e dobragem. Venha o Frank Herbert’s Dune. Um jogo já de si a bailar entre o mau e o sofrível vai completamente abaixo com a tradução integral do jogo. Para quem já está habituado a imaginar a franchise Dune apenas em inglês, no meu caso, o primeiro livro, a sequela Dune Messiah, o filme de Lynch, ambas as mini-séries do Hallmark e o jogo da Cryo (o Dune 2 da Westwood podiam mudar uns nomes e umas texturas e dar-lhe outro nome – coisa que até fizeram, e chamaram “Command & Conquer”), deparar com uma tradução integral oscila entre o “assustador” e “perturbador”, principalmente quando o trabalho de localização não é propriamente o melhor (afinal de contas, contratar meia duzia de voice actorsconsagrados para um jogo que pode não chegar a vender mil unidades é um risco enorme).Se por um lado, jogos destinados a crianças até aos 8 anos deveriam ser obrigatoriamente localizados, a partir daí a opção de escolha entre manter a versão original ou a localizada deve ser mantida. A solução até poderá ser barata para jogos PC: bastará importar o jogo do Reino Unido (tal como acontecia nos bons velhos tempos) na mesma, e incluir os ficheiros localizados num disco separado ou disponível online que o utilizador final decidirá se quer utilizar ou não, em vez de forçar o reprint das relativamente poucas unidades destinada ao mercado nacional.

Felizmente, salvo raras excepções grande parte dos jogos ainda chega cá na versão original (ou Ocidental, no caso de jogos feitos no Japão), ao contrário do que acontece, por exemplo, na Alemanha ou na França. Afinal de contas, quantas pessoas agora entre os seus 20/30 anos deram os seus primeiros passos no inglês a jogar as pequenas maravilhas das Quest series da Sierra ou num Sim City? Num mundo onde é practicamente obrigatório o domínio básico do inglês, o aumento da localização de títulos orientados à faixa etária entre os 10 e os 14 anos pode levar ao facilitismo típico dos países onde o inglês é a lingua materna e se pensa que saber uma só lingua é o suficiente, e o resto do mundo é que são anormais por se darem ao trabalho de saber falar mais que uma lingua.

Posted Terça-feira, 12 Dezembro 2006 by Silva in Jogos

%d bloggers like this: