Primal Scream – Beautiful Future

Have a good time

Os Primal Scream são definitivamente um “bicho raro” na música. Formados ainda bem cedo nos anos 80, com os primeiros dois álbuns a saírem nos últimos anos da década, a banda era conhecia quase exclusivamente pelo seu líder Bobby Gillespie ter sido o percurssionista dos The Jesus and Mary Chain em Psycho Candy, um disco que mais de 20 anos após do seu lançamento continua a influenciar discos como Lust Lust Lust do duo Sueco Raveonettes e o trabalho dos Glasvegas (a nova banda fetiche de Alan McGee), mas em 1991, na esteira do movimento baggy, Bobby Gillespie iria tornar-se uma estrela em nome próprio ao lançar o que será provavelmente o álbum mais relevante do movimento fora de Manchester, Screamadelica. Homem de muitos talentos (e a reconhecer que o baggy estava morto em 1994), Bobby Gillespie fazia uma re-aproximação à música inspirada pelo blues-rock dos Rolling Stones, e gravava o quarto álbum no Sul dos Estados Unidos, na hora mais difícil para a banda, com problemas internos,  viciados em drogas duras e o esfaqueamento quase fatal de Martin Duffy. A redenção iria começar com o final dos Stone Roses, que libertava Mani para os Primal Scream ainda a tempo de dar uma contribuição de peso em Vanishing Point, álbum que deu início ao período mais produtivo da banda, com o muito louvado XTRMNTR e Evil Heat. Em 2006, o regresso ao rock influenciado pelos Rolling Stones com Riot City Blues, e de novo a fracturar as opiniões sobre a banda.

Dois anos volvidos, Bobby Gillespie obviamente não se mostra arrependido. Além de ser claramente um dos ritmos com os quais gosta mais de trabalhar,  parte da imagem da banda vive na frase dita uma vez sobre a banda: “fazem dois tipos de álbuns, obras primas e merda“. O que tem o extra de quando um álbum novo é anunciado há uma excitação especial em saber sobre do qual vão-se aproximar. Beautiful Future de seu nome, que sugere o álbum volta aos tempos do hedonismo do Second Summer of Love dos tempos de Screamadelica, com uma melodia muito anos 70 a acompanhar. A ilusão acaba assim que Bobby Gillespie começa a debitar a letra inicial (“take a ride around the city, tell me what they see, empty houses, burning cars, little bodies hanging from a tree“), e rapidamente se nota que a faceta anarco e anti-capitalista que Bobby Gillespie adoptou neste milénio ainda continua com. Anedota? Convicção séria? Para uma banda que já fez de “we wanna get loaded and we want to have a good time” um hino pessoal, quase que se torna irrelevante.

À faixa de abertura segue-se o primeiro single, onde o jovem Bobby Gillespie (a olhar para as fotos mais recentes, custa a acreditar que já passaram 46 anos desde que nasceu em Glasgow) canta sobre drogas (quelle surprise), numa faixa com uma secção instrumental liderada pela guitarra de Andrew Innes, que promete ser um dos principais momentos para levantar os braços no ar nos concertos da banda nas tours que se vão seguir.

Em Uptown, Bobby Gillespie aproveita a secção de ritmo  propulsionada por Mani e Darrin Mooney para cantar sobre os desencantos na vida da cidade e os encantos do escapismo de sábados de noite, para em Glory of Love falar de… bem, do amor algo masoquista, já com a deixa “they love to hurt you, you love to be hurt, in the cure for the sickness of love” para uma das músicas da segunda metade do álbum. Após Suicide Bomb, com mais uma boa faixa a apelar aos instintos mais… “primários” de Bobby Gillespie, temos uma faixa a começar com um Hey hey zombie man, gonna put you in a can com um coro gospel a convidar ao sing-along. Obviamente que de Bobby Gillespie  de não se vai esperar a resolução para o conflito no médio-oriente através da música, mas afinal de contas será antes o regresso ao “have a good time” que Bobby Gillespie tantas vezes falou no auge da banda?

Após Beautiful Summer, temos o que é outro dos pratos fortes de cada oferta dos Primal Scream: os músicos convidados. Sempre capaz de se rodear de nomes interessantes para as suas músicas, desde Dave Gahan (numa tour que deve ter subido o PIB da Colômbia em 5%), Mani, Kevin Shields, Bernard Sumner,  Robert Plant, Jim Reid e… errr… a Kate Moss, Lovefoxxx dos CSS apoia Gillespie em I Love To Hurt (You Love To Be Hurt), a cantora folk Linda Thompson em Over & Over (cover dos Fleetwood Mac) num dos momentos altos do álbum e Josh Homme dos Queens Of The Stone Age aparece a dar a sua contribuição em Necro Hex Blues, faixa que encerra o album, antes da versão single de The Glory of Love.

Também vale a pena referir que o CD oferece o acesso à area reservada, onde neste momento é possível ver Can’t Go Back tocada ao vivo, uma entrevista de Bobby Gillespie e um link para o b-side Urban Guerrilla, com promessas de mais material a ser adicionado no futuro (não que vá acontecer, e daqui a dois anos jmuito provavelmente já irá ser uma função completamente inútil). A produção do álbum ficou a cargo de Paul Epworth (as duas faixas de abertura) e de Björn Yttling, do trio da “música do assobio” que inundou as ondas de rádio em 2007. Com estes nomes, será Beautiful Future o álbum de “pop sujo” que Kapranos e companhia a certa altura prometeram antes de volar atrás?

No final dos 47 minutos pode não ser um álbum ao mesmo nível de Screamadelica ou XTRMNTR, mas certamente consegue colocar os seus ombros firmemente entre Vanishing Point e Evil Heat na corrida para o terceiro lugar do pódio. Tal como os trabalhos anteriores, não será um álbum para todos, mas isso é algo que raramente interessa a Bobby Gillespie. E que duvido que conseguisse, mesmo a tentar.

Beautiful Future saiu dia 21 de Julho pela B-Unique, e a 1 de Agosto os Primal Scream fecham o segundo dia do Festival de Paredes de Coura.

Alinhamento:

  1. Beautiful Future
  2. Can’t Go Back
  3. Uptown
  4. The Glory of Love
  5. Suicide Bomb
  6. Zombie Man
  7. Beautiful Summer
  8. I Love to Hurt (You Love to Be Hurt)
  9. Over and Over
  10. Necro Hex Blues
  11. The Glory Of Love (versão single)

Posted Terça-feira, 29 Julho 2008 by Silva in Musica

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