Do Vinil ao CD, do CD ao Digital e de volta ao Vinil

Este artigo do JPN, para o qual (penso) que fui entrevistado numa das lojas da Rua Miguel Bombarda no final do ano passado, lembrou-me de que acabei por nunca escrever nada sobre o assunto aqui. Por isso, aqui vai…

O vinil foi declarado morto a partir do primeiro CD apareceu à venda para o grande público em 1982. O então novo formato prometia mais para o futuro: mais fácil de reproduzir, mais fiável e mais fácil de fabricar e armazenar, e parecia que iam acabar os tempos de “picar” o vinil à procura de certa faixa, com muito cuidado para não danificar os entalhes ou o próprio equipamento e ter a sala sempre a determinada temperatura para e armazenados de forma a que o vinil não dobre, mas foi preciso esperar até aos anos 90 para ver o preço dos leitores de CDs baixar ao ponto em que deixava de ser o formato dos audiófilos, para ser o formato das massas. A cassete  iria durar até ao meio da década, muito graças à sua portabilidade e ao baixo preço dos diversos clones do Walkman da Sony, mas tiveram igualmente o seu fim a meio dos anos 90, quando o progresso levava a que os leitores portáteis a preços acessíveis fossem uma realidade, batendo concorrentes que se alinhavam como o sucessor para o som móvel, como o DCC da Philips ou o Minidisc da Sony.

Estava estabelecida, então, a era do CD. O vinil, apesar de afastado das lojas, teimava em não morrer. Não só algumas bandas continuavam indefectivelmente a lançar para o formato, bem como continuava a ser utilizado em massa pelos DJs, como havia literalmente décadas de música que ainda só existia nas rodelas plásticas de 12 polegadas. Apesar de remetido ao underground, o vinil continuava a ser comercializado e ferozmente defendido pelos puristas, o que sempre levou às conhecidas discussões sobre qual o formato com melhor som, entre o digital e o analógico. O final dos anos 90 traria, no entanto, a evolução seguinte dos formatos digitais – a Fraunhofer, instituto alemão de pesquisa, tinha desenvolvido o formato MPEG Layer 3 para compressão áudio, e disponibilizado as primeiras ferramentas públicas em 1994 – demasiado cedo para grande parte do público, então ainda a adoptar o conceito do “multimedia PC”. Em 1997 a Nullsoft lançava a primeira versão do Winamp, e em 1998 apareciam os primeiros leitores de áudio digitais. A pedrada final iria ser lançada em 1999 com o lançamento do Napster, e com o seu encerramento e dezenas de sucessores, tornou-se evidente como o formato puramente digital podia ser aproveitado, não só pelos freeloaders como comercialmente, e timidamente apareciam as primeiras experiências de comercialização de ficheiros MP3.

Apesar de não ser o primeiro, nem ser o primeiro a ser popular (o Rio PMP30 da Diamond e o Nomad Jukebox da Creative terão essa distinção), a revolução iria ser dada pela Apple, com o seu iPod, apoiado numa série de anúncios que alargavam o mercado dos leitores digitais portateis ao  grande público. Dois anos depois, o iTunes Store, parte integrante do software de gestão do iPod tornava-se num retalhista gigantesco, apesar das críticas de bandas que acusavam a Apple de, de facto, “retalhar” os seus trabalhos.  O número crescente de vendas digitais, particularmente com músicas isoladas (daí o “retalhar”) leva a que algumas tabelas levem em consideração as vendas digitais.
No entanto, por mais “crises económicas” de que se fale, vivemos numa sociedade materialista de consumo e ostentação. Apesar das vantagens da distribuição digital, algumas das pessoas rapidamente começaram a reparar que pagavam por zeros e uns. Nada de palpável, nada que mostrar… e a reacção natural foi precisamente adoptar de novo os discos de plástico gigantes, com o seu artwork elaborado, mesmo por pessoas que não têm o equipamento para os ouvir – no fundo, os mesmos que o único uso que dão aos CDs é fazer-lhes uma cópia de alta qualidade (porque, meus amigos, o velho chavão repetido vezes sem conta por pseudo-entendidos no forum do Blitz de que “o MP3 soa mal” quer dizer que ou não sabem fazer cópias de alta qualidade a 320kbps VBR ou então, ouvem do belo do telemóvel ou em equipamento de merda). Eventualmente, algumas editoras começam a oferecer o download legítimo aos compradores de vinil – no fundo, a reconhecer que a compra física em qualquer formato é mais um acto de colecção do que auditório, numa boa parte dos casos.

A resistir desde os anos 40, os discos de vinil viram diversas revoluções e modas aparecer e desaparecer. Embora este último renascer seja mais um acto contra o “vazio” dos zeros e uns  bem como um acto algo kitsch e romântico, retirado do imaginário dos Joy Division a embalar manualmente o disco de estreia dos Durutti Column, acaba por mostrar que os dois chavões da música estão permanentemente errados: o rock está vivo e o vinil também.

Posted Sábado, 17 Janeiro 2009 by Silva in Musica

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