Carta aberta à abécula chamada Tozé Brito

Que o Tozé Brito é uma abécula de primeira, já é bem sabido. Mentalidade típica de quem ainda pensa que o universo pouco mudou nos últimos 5 anos (falar em 10 ou 20 já começa a ser muito). A última dele: Roubar uma música é igual a roubar um carro. Então vamos fazer assim – eu vou dar à escolha sacar uma música de qualquer grupelho dele, ou pegar num tijolo e fazer uma ligação directa no Mercedes, BMW, ou qualquer carro de alta cilindrada que os anos a servir uma associação fantoche como a SPA lhe permitem adquirir.Vou dar outra opção: sacar a discografia inteira dele, ou esperar que esteja com a família toda no carro, esperar por um semáforo vermelho numa noite em que acaba com o carro dele na Polónia e a família dele a ser identificada no instituto de medicina legal. Que tal estas escolhas?

A resposta seria lógica, não é?
Um acto criminoso grave, outro é um de violação dos direitos de autor. Diferentes gravidades, e aposto que se fossemos à discografia dele, iamos encontrar riffs retirados de um disco qualquer estrangeiro sem o devido crédito (basta observar a produção musical em Portugal nos anos 80 para ver como era comum). E isso é muito mais grave – estamos a falar de violação do direito de autor com o intuito de lucro – ao contrário da grande maioria dos utilizadores de fileshare que têm que pagar para fazer as suas pequenas violações diárias.

Esta abécula, que não tem outro nome, esquece-se que o fenómeno da pirataria vem muito de trás – o selo da IGAC foi criado (alegadamente, é uma bela fonte de rendimento para a organização, e serve essencialmente os interesses dos grandes retalhistas) com esse propósito nos anos 80, numa altura em que uma percentagem muitíssimo reduzida da população teria acesso a computadores pessoais, quanto mais às BBS da altura. Que no máximo teriam uns joguitos de Spectrum.  A ideia de que por cortar a internet aos pervaricadores como forma de assustar os restantes é tão absurda que até me sinto  um parvo em dedicar tantas linhas a este assunto. Num caso de um “lockdown” completo à internet vamos voltar aos tempos pré-internet e de quando um gravador de CDs podia custar tanto como um pc – aquele “gajo fixe” que faz cópias “do que quiseres” por “mil paus”. Não a filas intermináveis para comprar o último álbum dos Arcade Fire na fnac.

Agora, há que fazer uma pergunta – ou várias: nos anos 80 e até durante uma boa parte dos anos 90, a radio ainda cumpria o serviço de passar alguma música minimamente decente. Tirando as quotas de música nacional da rádio (que além de muitas vezes serem mal cumpridas, servem para meter músicas de “artistas” de novelas, cantores românticos inssossos ou pimbas), o que é que a SPA fez para incentivar ao consumo de música, nacional ou não (embora nesse caso, a responsabilidade seja da AFP)? Ou melhor ainda, quando foi feita a última investigação aos casos de payola nas rádios nacionais? E porque é os tops nacionais são feitos nos bastidores, com a AFP a aceitar o número de cópias colocadas à venda como vendas a consumidores finais? Qual é a percentagem que as distribuidoras nacionais (para as quais a abécula trabalhou durante anos) retiram de cada álbum vendido em Portugal, ao mesmo tempo que encarecem o preço para o consumidor (ao mesmo tempo que os mais elucidados compram no estrangeiro)? O que é que a SPA vai fazer para combater a perseguição fiscal do governo aos artistas?

Perguntas sem resposta, ou com uma resposta inconveniente – mais vale a pena culpar a internet.

Quem não gostar de música popularucha em Portugal, está, a usar o espectro todo do vocabulário, fodido, e para o fazer de uma forma legal tem que andar a remexer nos canais de cabo até encontrar uma meia hora dedicada a música mais alternativa.

Posted Sábado, 7 Março 2009 by Silva in Coisas mais a sério, Musica

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