Madchester

Shoegaze. Britpop. Que tal completar a primeira parte da triologia com o movimento contemporâneo ao Shoegaze e que de certa forma foi o prercursor para o Britpop? Directamente da louca Manchester do final dos anos 80 e com a roupa folgada no resto do país, isto é Madchester e mais a sul do país, Baggy.

As origens do género podem ser traçadas a duas bandas, ambas da incontornável Factory Records. A primeira são os A Certain Ratio, conhecidos como pelas fardas militares ou de escuteiro e pernas “bronzeadas” com creme com que faziam os seus concertos. Apesar de algumas comparações com os Joy Division, os ACR eram uma banda com uma maior componente instrumental, influenciada pelo funk e até, imagine-se, samba. Os discos The Graveyard and the Ballroom de 1980 e I’d Like To See You Again de 1982 contêm diversas músicas que fazem uma ponte entre os som típico da Manchester dos primeiros anos da década e da ressaca do punk, mas com ritmos mais dançáveis, com um baixo no estilo funk e por vezes apitos, maracas e tan-tans a figurar por entre os instrumentos habituais.

Mas se os A Certain Ratio abriram o caminho para a fusão entre o post-punk sombrio e os ritmos dançáveis, a banda que levou essa fusão para voos mais altos foram os New Order. Nascidos das sombras dos Joy Division após o suicídio de Ian Curtis, os New Order passaram o primeiro ano da sua existência a editar músicas escritas pelo malogrado vocalista (os singles Ceremony e Procession) e um álbum (Movement) que não fugia em demasia do que a encarnação anterior da banda fazia. No entanto, nesse ano a banda iria fazer a esperada tour pelos Estados Unidos que nunca fizeram como Joy Division, e essa experiência iria transformar não só o som da banda, como também o resto da música da década.
Em Nova Iorque a banda era exposta à club scene local, onde géneros como o disco, electro funk, freestlye, italo-disco e o emergente hip-hop dominavam, e os primeiros trabalhos lançados após essa tour reflectiam essas influências: começando por Everything’s Gone Green e Temptation, a banda incorporava a sonoridade das pistas de dança sem abandonar a identidade post-punk da banda.

Ao mesmo tempo em Manchester, Tony Wilson, que anos antes se havia fartado de apenas promover bandas no seu programa televisivo e organizado as primeiras Factory Nights que levaram à criação da editora com o mesmo nome, planeava com Rob Gretton, manager dos New Order, o passo seguinte: a criação de um clube nocturno à imagem do que haviam visto nas viagens aos Estados Unidos. Assim, num antigo espaço de exposições, nascia a The Haçienda, número de  catálogo FAC 51, que iria ser o grande palco da cidade para o resto da década.
Três anos após a tour americana, os New Order lançavam em Março o álbum Power, Corruption & Lies, mas seria um single não incluído no álbum que mostrava a nova orientação da banda: Blue Monday, com a batida electrónica programada por Stephen Morriss, os sintetizadores de Gillian Gilbert, as linhas de baixo inconfundíveis de Peter Hook e a voz monótona de Bernard Sumner a recitar a letra da música. Estava feito o primeiro grande crossover entre a música de dança e o post-punk, com vendas calculadas acima de um milhão de unidades, mas que apesar do sucesso de vendas, não fazia dos 4 membros dos New Order milionários, apesar do “contrato” que lhes garantia metade dos lucros – não só as primeiras edições do single resultavam num prejuízo de 2 pence por unidade para a editora como a Haçienda necessitava desse dinheiro para combater o insucesso inicial. Outra banda da Factory que iria seguir o mesmo caminho eram os Section 25, a certa altura considerados como os sucessores naturais dos Joy Division (aliás, um dos seus primeiros singles foi produzido por Ian Curtis),  mas que após uma alteração nos membros da banda e com a ajuda de Bernard Sumner iam em 1984 lançar From The Hip, outro álbum que demonstrava as influências electrónicas igualmente adquiridas numa tour americana.

1984 foi também o ano em que a banda que para muitos exemplifica o movimento toca pela primeira vez em conjunto. Embora o som desta primeira encarnação da banda com Ian Brown, John Squire, Alan “Reni” Wren, Pete Garner e Andy Couzens talvez seja completamente irreconhecível a quem conhecer o material que os ia tornar famosos poucos anos mais tarde, estes eram os Stone Roses. A transformação para esse som veio com o single Sally Cinnamon, e mais tarde a saída de Andy Couzens que deixava Squire como o único guitarrista da banda e de Pete Garner, substituído por Gary “Mani” Mounfield, com quem Squire tocava noutro projecto seu. Este era o alinhamento que em 1985 iria começar a trabalhar no album de estreia para a Silvertone. Ian Brown e John Squire conheciam-se desde pequenos, quando ambos frequentavam a Altrincham Grammar School For Boys e iam a concertos de northern soul. Brown eventualmente juntava-se à banda de Squire, os The Patrol, que eventualmente se transformaram nos Garage Flower (nome que iria servir para uma edição -provavelmente lançada à rebelia da banda- das primeiras sessões abortadas com Martin Hannett na produção) e mais tarde nos Stone Roses. Se os Stone Roses estavam longe das “garras” de Tony Wilson e da Factory (tal como o mesmo dizia, o primeiro manager tinha gerido a Haçienda, o segundo era nada mais nada menos que a sua ex-mulher e depois Martin Hannett – todos indivíduos com quem Wilson tinha tido desavenças), isso não o impediu de encontrar a outra banda pretendente ao trono no último lugar de uma competição para bandas novas realizada na Factory por Mike Pickering, um dos DJs residentes do espaço. No entanto, por “decisão executiva”, os Happy Mondays (cujo nome era aparentemente uma reacção ao negativismo e nostalgia reinantes na música da cidade e ao hit Blue Monday) eram os vencedores e conseguiam o contrato junto da Factory, e em 1985 lançavam o primeiro disco: Forty-Five EP, inicalmente com Vini Reilly como produtor, mas o tímido guitarrista e membro único dos Durutti Column não conseguia trabalhar com a banda, conhecida pelos excessos e má atitude dos membros que a compunham, principalmente dos irmãos Ryder: Shaun (vocalista) e Paul (baixo). Shaun era conhecido pelos seus excessos desde jovem: apanhado a entrar na sala de aula da escola primária para roubar os rebuçados destinados aos “bem comportados”, assaltar pessoas junto com o seu irmão Paul e conseguir esconder os “frutos” dos seus pais, roubar cerveja para depois vender aos bêbados da cidade, abandonar a escola aos 15 anos sem saber sequer o abecedário, até que em 1979 tinha o seu primeiro encontro com a fama: aparecia na BBC ao literalmente explodir 3000 pombos em Manchester após alimentar-lhes pão que havia sido alterado para fermentar e inchar na barriga dos pobres animais. O outro membro mais visível da banda era Bez “Bez” Bez, velho conhecido dos Ryders e mascote da banda, já que o seu papel em palco era simplesmente estar sob a influência de Ecstasy e alucinogénos enquanto dançava de uma forma bizarra ao som da banda e agitava duas maracas (mais tarde, o NME iria usar “Bez” como um adjectivo para membros de bandas cuja contribuição para o som era mínimo ou inexistente). Enquanto as duas bandas ainda se preparavam para o estrelato, um projecto de nome M|A|R|R|S entrava nos tops, com Pump Up The Volume, um single pioneiro no establecimento da música de dança e house no Reino Unido. O projecto, na realidade uma fachada para duas bandas da 4AD, A R Kane e Colourbox, foi desastroso  com os membros claramente incapazes de trabalhar em conjunto, mas o resultado final era uma obra prima da emergente técnica do sampling  digital (popularizada anos antes pelos Art of Noise), e as vendas começaram a acumular-se, até que os reis da música pop da década, o trio Stock Aitken Waterman processavam a banda e retirava os discos do mercado pelo uso indevido de uma sample distorcida de um disco do extenso catálogo do trio. Entre as acusações de plagiarismo de um lado e outro, a ideia final era que o disco dos M|A|R|R|S era uma ameaça demasiado forte ao primeiro lugar do mega-hit de Rick Astley Never Gonna Give You Up. Mesmo assim, o tempo encarregou-se de tornar Pump Up The Volume num dos catalizadores da música britânica nos anos seguinte. E a destronar Astley do topo.

1988. Mike Pickering começa com Jon DaSilva as famosas noites dançadas ao ritmo do acid house e alimentadas pela droga do momento, o Ecstasy, de seu nome Hot, seguindo os eventos Nude que Pickering tinha começado dois anos antes com o DJ Little Martin. Era a era dourada do Rave, que se extendia a todo o país, com festas ilegais de proporções gigantescas, muitas vezes em armazéns abandonados em zonas industrias servidos pela via rápida Orbital M25 em Londres (que deu o nome aos Orbital, que seria um dos nomes mais importantes da cultura Rave e da música electrónica nos anos 90). Neste ano saiu um dos hinos do Acid House, Voodoo Ray, nome que surgiu após a sample mais utilizada na música (“Voodoo Rage”) ter sido truncada por limitações de memória, de Gerald Simpson (A Guy Called Gerald), e falhava por pouco o Top10, mas  contribuía no aumento do perfil da música puramente electrónica nos tops. Depois de no ano anterior terem lançado o seu primeiro álbum com o longo título de Squirrel and G-Man Twenty Four Hour Party People Plastic Face Carnt Smile (White Out), os Happy Mondays lançam o primeiro álbum definitivo da era: Bummed. Produzido por Martin Hannett, então em queda livre devido ao consumo abusivo de drogas e alcool, o disco combinava o rock alternativo da altura com alguns tons de psicadelismo e funk com as letras bizarras de Shaun Ryder – Moving In With incluía um jogo de palavras em que a letra referia uma fábula (“Henny Penny, Cocky Locky, Goosey Loosey, Turkey Lurkey, Ducky Lucky, Chicken Little, it seems they are all on the move when the sun is falling in“) e Do It Better terminava com “Good, good, good, good, good, good, good, good, good, good, good, good, double double good, double double good após minuto e meio com uma letra de difícil compreensão, não só pela estranha sequência de ideias (“Stuck a piece of crap in a butcher’s hat//It might do no good, made my cat bad” ?) como pela pronúncia de Ryder e a produção tipicamente calustrofóbica de Hannett. Mas a revolução dos Mondays não saiu directamente do disco: o remix de Vince Clarke (Depeche Mode, Yazoo e Erasure) para Wrote For Luck, intitulado W.F.L. saiu em 1989, e transformava a música num verdadeiro hino das pistas de dança.

Nesse ano os New Order lançavam o que ia ser o último álbum pela Factory, Technique, e igualmente o trabalho mais electrónico da banda, influenciado pelos sons Baleares que a banda presenciava em Ibiza e que faziam furor na Haçienda. Os 808 State (cujo nome devem ao Roland TR-808, uma drum machine lançada anos antes, mas que só iria ganhar nome quando passou a ser a mais utilizada no acid house) lançavam outro dos hinos do acid house, Pacific State. Este “movimento” à volta de música electrónica e diversas bandas alternativas independentes iria ganhar um nome e uma imagem (cortesia da Central Station Design) com um EP de 4 faixas dos Happy Mondays: Madchester Rave on, disco esse que apresentava um dos hinos do movimento, Hallelujah.

Mas se os Happy Mondays deram o nome, os Stone Roses, após uma série de singles lançavam The Stone Roses, uma obra prima do indie pop do final da década, e frequentemente citado como uma das peças músicais mais importantes da década e da música britânica em geral. O NME, apesar de inicialmente ter apenas atribuído nota 7 ao álbum (anos mais tarde iria ser elevado ao título de “melhor álbum Britânico de sempre”), atribuía à banda 4 galardões nos prémios anuais organizados pela revista: melhor banda, melhor nova banda, melhor álbum e melhor single, para Fools Gold, música que rapidamente se tornou na imagem de marca da banda, com o ritmo inconfundível de Mani e Reni, a guitarra wah-wah de Squire e o estilo descontraído de Ian Brown, com um movimento instrumental na segunda metade da música que completava o crossover: a música de guitarras tipicamente indie seguida pela música de dança, tudo na mesma música. Estava-se a entrar no auge do Second Summer Of Love, em Manchester em vez de S. Francisco, com ravers em vez de hippies e Ecstasy em vez de LSD. A cidade de Manchester, o antro cinzento e degradado que serviu de inspiração a músicos como Ian Curtis e Morrissey rejuvenescia e ganhava cor com o interesse no som da cidade, e a Universidade de Manchester intrometia-se na luta eterna entre Oxford e Cambridge pelo primeiro lugar no top de candidaturas. O crime também subia, alimentado pelas lutas de gangs pelo controle das “pílulas mágicas” que “transformavam uma noite na discoteca numa experiência que mudava a vida”.

A entrada na última década do milénio foi com força. Em 27  de Maio, os Stone Roses organizaram um concerto em Spike Island que foi presenciado por mais de 27 mil espectadores, e apesar dos diversos problemas (o vento forte que se fazia sentir levava o som para longe, filas intermináveis nas barracas, algumasescolhas menos acertadas nas bandas/DJ’s de suporte, e, bem, Ian Brown ao vivo) tornou-se num dos eventos mais importantes do movimento. Que, afinal de contas, reflectia bem o espírito – a música era só parte de algo muito maior. Já os Happy Mondays continuavam a fazer a cidade dançar, primeiro com o single Step On, depois com o álbum Pills n’ Thrills n’ Bellyaches, este produzido por Paul Oakenfold e Steve Osborne, com ambos os discos a entrar no Top 5 de vendas, e eram acompanhados por outras duas bandas do Norte: os The Charlatans do Cheshire e os Inspiral Carpets de Oxford. Enquanto os primeiros seguiam a linha dos Stone Roses, os Inspiral Carpets faziam uso do popular orgão Farfisa para criar texturas psicadélicas muito ao estilo dos anos 60, mas a que terá sido a sua maior criação terão sido as t-shirts de promoção ao EP  Cool as Fuck – que diz-se serem o produto mais vendido pela banda – o desenho da vaca com óculos escuros era acabava por se tornar mais relevante que a música que era suporto promover. Sem nunca terem alcançado o êxito dos Stone Roses ou dos Mondays, eram bandas mais estáveis que iriam sobreviver ao declínio nos anos seguintes. O mesmo se pode dizer dos James, que em 1991 quase uma década após terem começado a tocar juntos, falharam por pouco o lugar cimeiro com mais uma regravação de Sit Down, que se viria a tornar a música mais conhecida da banda. Longe de serem uma banda acolhida por todos desde os primeiros dias, os anos 80 foram passados a saltar entre a Factory (onde editaram o primeiro EP), Sire (primeiro álbum) até que passaram brevemente para a Rough Trade antes de assinar pela Fontana, isto a tempo de lançar Laid, em 1993. Apesar do sucesso comercial ter esperado por 1990 com Gold Mother, os James já eram uma das bandas mais conhecidas e respeitadas de Manchester, muito graças às performances ao vivo da banda. Curiosamente, a banda já havia servido de rampa de lançamento tanto aos Stone Roses como aos Happy Mondays quando a determinada altura faziam as primeiras partes dos seus concertos, bem como a um número de outras bandas que iriam alcançar um sucesso gigantesco, caso dos Nirvana numa das suas primeiras tours pelo Reino Unido como  mais tarde os Radiohead ou os Coldplay.

Outra banda que encontrava o sucesso em 1991 eram os escoceses Primal Scream com Screamadelica. Após dois álbuns lançados nos anos 80 onde Bobby Gillespie, o percussionista original dos The Jesus and Mary Chain, faziam uma homenagem ao jangly pop, sendo um dos nomes de referência do chamado C86, a banda envolveu-se nos ritmos dub, house e baggy, produzindo assim o disco que manteve a Creation viva por mais alguns anos. Mais a Sul, os Blur iriam apanhar a esteira tanto do Shoegaze como do Baggy, e apesar do disco de ouro que Leisure conseguia, era visto apenas como um aproveitamento dos dois movimentos, tendo a imagem da banda saído prejudicada por isso. Outra banda que fazia a fusão entre o indie e a música de dança eram os Saint Etienne, um projecto composto por jornalistas, Pete Wiggs e Bob Stanley e que encontrava em Sarah Cracknell a voz definitiva para o projecto que segundo a imprensa da década, “perseguia o pop puro“. Os primeiros dois discos da banda, Foxbase Alpha e So Tough começavam a dar a entender que era possível ir além dos formatos popularizados pelos Stone Roses e Happy Mondays, e que o próprio mercado começava a ficar saturado com as bandas Baggy, como os Flowered Up, Soup Dragons (que consideravam uma das suas memórias favoritas entrar no Top 5 Português) Mock Turtles, ou os The Farm. Uma das músicas mais lembradas da era é a incontornável Unbelievable dos EMF. A banda da  pequena aldeia de Cinderford, junto ao País de Gales  usava a mesma mistura de música electrónica intercalada com a típica música de guitarras, e conseguia com essa música de estreia penetrar em diversos mercados com um sucesso estrondoso, incluindo o lugar cimeiro no Billboard Hot 100 americano. Schubert Dip, o seu álbum de estreia, conseguia igualmente uma recepção calorosa nos dois lados do Atlântico, chegado ao terceiro posto em ambos. Os EMF trabalhavam em proximidade de outra banda que procurava seguir o mesmo caminhos (embora ao mesmo tempo a piscar o olho a sons mais pesados), os Jesus Jones, que igualmente em 1991 lançavam o seu primeiro álbum, Liquidizer.

Na cena electrónica, os primeiros anos viam dois discos que iriam ser reconhecidos como clássicos do género, mais precisamente do que uma das bandas iria intitular de Stadium House: The White Room, dos KLF (1991), e o disco homónimo dos Utah Saints (1992). Os KLF foram provavelmente um dos grupos mais bizarros que apareceram na história da música britânica. Formados como The Justified Ancients of Mu Mu em 1987 após Bill Drummond, um antigo prospector de talentos da WEA ter tido uma “iluminação”, decidido fazer um disco de hip-hop e juntar-se a Jimmy Cauty, membro de uma das bandas que tinha assinado com a editora. O resultado desse disco foi 1987 (What The Fuck Is Going On), que além de ser um exercício de sampling brilhante (até porque o material original é muito escasso), vale por todo o mito que se formou à volta dele. De modo a tentar regularizar as samples dos Abba (que até então nunca tinham permitido tal coisa), rumaram à Suécia com todos os álbums ainda por vender, e foram aos escritórios dos responsáveis pelos direitos dos Abba sem qualquer aviso prévio, e após ter-lhes sido negado sequer a hipótese de discutir a situação, foram forçados a destruir os discos. Entre oferecer a prostitutas, queimar num campo (e afugentados a tiro pelo dono do mesmo) e atirar os restantes barco fora para o Mar do Norte, tudo serviu. Quando chegaram, fizeram um single de 12″ com os samples ilegais removidos; como é óbvio, pouco restava além de silêncio. Um ano mais tarde, entravam no top como The Timelords, com Doctorin’ The Tardis, uma música feita à volta de uma sample da série de culto Dr. Who, e a experiência servia para escrever um livro de seu nome The Manual (How to Have a Number One the Easy Way), com algumas passagens quase proféticas, sobre a forma de manipular a indústria discográfica. Apesar de publicado em 1988, o livro ainda demonstra uma frescura surpreendente na análise dos discos que chegavam aos tops no final da década de 80 – prova que o tempo passa, mas algumas coisas pouco (nada?) mudam.

Ao mesmo tempo que Madchester chegava ao seu auge, a sorte dos Stone Roses mudava, vítima da sua própria ambição e ganância. Sem serem propriamente conhecidos pela sua modéstia (afinal de contas, esta era uma banda que acabava os concertos com I Am The Ressurection), após o álbum de estreia a banda exigia a saída para uma major. A Silvertone sabia o que tinha, e não fazia intenção de abrir mão disso. A banda sabia o que poderia obter um contrato milionário numa editora internacional, e não fazia ideias de lançar mais material para ganhar “trocos”, Esse impasse iria manter-se até 1991, altura que a Silvertone “rasgava” o contracto, e deixava a banda livre para assinar com a Geffen. Mas a luta deixava as suas marcas – não só a  inactividade e incerteza, como a relação de Squire com Brown degradava-se devido ao elevado consumo de drogas e tabaco (que lhe iam alterando a voz,  já de si pouco famosa), e o segundo álbum ainda iria esperar por 1994. Os Happy Mondays também enfrentavam a sua dose de problemas. O consumo de drogas no seio do grupo levava a que o quarto álbum da banda fosse gravado onde os hábitos de heroína de Shaun Ryder pudessem ser controlados: na ilha dos Barbados, nas Caraíbas. A Factory, agora com os New Order semi-retirados (apesar dos projectos Electronc, Revenge e Other Two, só o primeiro era bem sucedido comercialmente) e com a Haçienda tanto com problemas financeiros profundos (não era possível inverter a tendência dos frequentadores do espaço gastarem o seu dinheiro não no bar, mas nos traficantes de Ecstasy) como com a polícia (farta do crime tanto fora como dentro do clube), investia fortemente nos Mondays, que encontraram no crack o substituto para a heroína. As gravações além de dispendiosas foram pouco produtivas, e a escolha de Chris Frantz e Tina Weymouth dos Talking Heads como produtores revelou-se desastrosa. O resultado ficava muito abaixo do que a banda tinha feito, e incapaz de recuperar o investimento feito nele, os Happy Mondays acabavam, a Factory Comunications fechava as portas, encerrando um capítulo de 14 anos em que revolucionou não só a música de Manchester, como o conceito de uma editora independente, como graças ao “poder da dança”,a cidade em si.

Por isto tudo, em 1993 o movimento já estava na sua fase descendente. Os Suede tomavam conta dos tops e publicações indie ao mesmo tempo que os Blur se inventavam em Popscene e no álbum Modern Life is Rubbish, e parecia que o futuro era do Britpop. Mas enquanto as bandas que faziam parte do shoegaze despareceram do radar pouco depois de 1993 e 1994, as que fizeram parte integrante tanto de Madchester como do Baggy mais a sul ainda iam ficar no radar por mais tempo. Os Stone Roses lançaram The Second Coming, e o som mais influenciado pelo blues rock dos anos 70 era um contraste com o primeiro álbum, e a opinião girava em torno de uma ideia, bem resumida pela linha que resumia o álbum na lista de melhores álbums de 1995 na Select: “Infelizmente, nunca podia ser tão bom quanto precisavamos que fosse“. Entretanto, as tensões acumuladas na banda faziam com que Reni (segundo o próprio Squire, melhor que qualquer outro membro da banda em qualquer instrumento) saísse da banda em Março de 1995. O concerto de regresso, marcado para o encerramento de Glastonbury foi cancelado após uma queda de Squire (para proveito dos Pulp de Jarvis Cocker, que se tornaram numa sensação imediata após mais de 10 anos na obscuridade), mas após cumprir os concertos agendados para o final de 1995, em Abril do ano seguinte abandonava a banda antes das tours de Verão entre acusações de se isolar dos outros membros da banda e começava a preparar a “sua” banda, os Seahorses. Esta tour incluía uma passagem “histórica” da banda por Vilar de Mouros, porque segundo a opinião de quem viu, “o festival já tinha visto de quase tudo ao longo dos anos, mas para muitos a performance de Brown foi mesmo a pior que já passou pelo mítico palco“. Black Grape (capa Select Novembro 1995)A gota final foi em Reading, onde a banda, desprovida da genialidade de Squire e com Ian Brown desprovido de qualquer voz, acabava por ter a despedida a golpes de garrafa após um concerto de 75 minutos lastimoso. Entre muitos outros, a revista Select pedia o final da banda, agora com o guitarrista Aziz Ibrahim, o teclista Nigel Ippinson e o baterista Robbie Maddox, o que aconteceu ainda em 1996. Mas se os Stone Roses caíam, 1995 teve uma surpresa: os Black Grape. Após a forma como os Happy Mondays terminavam em 1992, ninguém arriscaria prever que Shaun Ryder e Bez, bem como o rapper Kermit (que tinha feito uma pequena participação em Yes Please!) fizessem um álbum com tamanha qualidade. Considerado um disco comparável ao melhor que Shaun Ryder tinha feito nos Mondays, It’s Great When You’re Straight…Yeah conseguia entrar nas listas de melhores álbuns do ano. Em 1997 Mani juntava-se aos Primal Scream, e um ano mais tarde Ian Brown começava a sua carreira a solo. Após o final dos Black Grape depois de um segundo álbum com uma recepção, mais fria os Happy Mondays ainda regressaram no final do milénio passado, e incrivelmente, voltaram aos estúdios em 2007 para gravar Uncle Dysfunktional, o 5º álbum da banda e continuam em actividade, não sem antes Bez ter voltado à atenção do público ao sagrar-se vencedor do Celebrity Big Brother de 2005, como forma de fugir ao estado de bancarota quase permanente em que se encontra. O “sucesso” da Haçienda levava a que outras editoras e investidores lançassem os seus clubes nocturnos, como o famoso Ministry of Sound e o Gatecrasher. Infelizmente, o alto crime que continuava a afectar a Haçienda levava a que as autoridades locais considerassem encerrar o espaço, o que aconteceu brevemente em 1991. O pior seria quando um estudante foi empurrado para a frente de um carro em movimento pelos seguranças, isto durante uma visita de diversos magistrados, e combinado com as finanças depauperadas (o espaço apenas se manteve aberto graças aos discos dos New Order, então já na London Records e num hiato prolongado) a licença de espaço de entretenimento foi negada, e após alguns meses como galeria de arte, a falência definitiva ditou a venda do imóvel, que seria transformado num bloco de apartamentos de luxo. Mas o crime não era um factor exclusivo de Manchester; Liverpool, que a partir da segunda metade dos anos 90 tinha ultrapassado Manchester como o centro da música de dança (muito graças ao clube nocturno Cream) via-se a mãos com uma guerra de gangs pelo controle do mercado de drogas em 1995, evento que culminou no assassinato de David Ungi, um líder de um dos gangs que controlava parte da cidade. Isto levou a um aumento da violência que levou a mesmo que criminosos de baixo nível levassem armas automáticas e coletes à prova de bala, e acima de tudo, uma vontade bastante forte de querer mostrar não ter problemas em dar-lhe uso.

Apesar de ambos os movimentos terem saído do mainstream após 1995, as fusões que envolviam a música Britânica mais tradicional com ritmos de dança bem como os DJs e bandas electrónicas nunca mais saíram do imaginário e dos tops britânicos; bandas como os Chemical Brothers, Underworld, graças à exposição conseguida no filme de culto Trainspotting, os Jamiroquai (saídos da scene Londrina de Acid Jazz) ou os Prodigy e djs como Paul Oakenfold ou Fatboy Slim (entre os seus diversos nomes de palco) alcançavam níveis de popularidade comparáveis e mantiveram-se populares durante uma boa parte da década.

Após na primeira metade desta década a música de dança ser quase exclusivamente um assunto deixado ao critério de DJs, em 2005 o semanário musical NME levava uma nova série de bandas que voltavam a abrodar a música de dança a partir de instrumentos convencionais de bandas rock. Apesar da maior parte dessas bandas não ser estranha ao epíteto “dance punk”, outro nome ficava na memória colectiva: New Rave. Bandas como os Klaxons, Sunshine Underground, Shitdisco, New Young Pony Club e os Brasileiros Cansei de Ser Sexy. Apesar do epíteto “New Rave” ter sido desde cedo olhado de lado, até pelos músicos quer eram associados (por vezes à força), entre 2006 e 2007 assistiu-se a um pequeno ressurgimento. Não foi um Third Summer of Love (apesar do noivado de Lovefoxx dos CSS e de Simon Taylor-Davis dos Klaxons), mas serviu espantar a impresão que a música indie Britânica não se iria limitar a re-invenções dos Libertines, Interpol, Strokes e Franz Ferdinand. 

Recomendações

  • The Graveyard And The Ballroom ~ A Certain Ratio (Factory, 1980)
  • Substance 1987 ~ New Order (Factory, 1987)
  • Bummed ~ Happy Mondays (Factory, 1988)
  • The Stone Roses ~ The Stone Roses (Silvertone 1989)
  • Some Friendly ~ The Charlatans (Dead Dead Good, 1990)
  • Doubt ~ Jesus Jones (SBK Records, 1991)
  • Screamadelica ~ Primal Scream (Creation 1991)
  • The White Room ~ KLF (KLF Communications, 1991)
  • Utah Saints ~ Utah Saints (London Records, 1992)
  • Laid ~ James (Mercury, 1993)
  • It’s Great When You’re Straigt… Yeah ~ Black Grape (Radioactive 1995)
  • Cool As ~ Inspiral Carpets (Mute, 2003)*
  • Bez’s Madchester Anthems: Sorted Tunes from Back in the Day ~ VA (Warner 2006)*
  • Raise The Alarm ~ The Sunshine Underground (City Rockers, 2006)

* Compilações

Posted Sábado, 16 Maio 2009 by Silva in Musica

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