Britpop – a história

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Depois do Shoegaze, o Britpop. Até faz algum sentido.

 

Os anos 80 chegaram ao fim. Se o punk estava quase morto após ter-se tornado quase numa paródia de si mesmo, os movimentos que provocaram afectaram o desenrolar da história da música, desde os género derivados (como o post-punk e o New Wave) até à forma como uma editora independente poderia subir aos tops sem necessitar de investimentos milionários, bastando para isso manter-se atenta ao talento disponível. No entanto, alguma falta de rumo e a importação directa da MTV ameaçavam a música Britânica, até que uma certa banda de Londres lançava uma pedrada no charco – nascia o que iria ser o som referência nas ilhas durante o resto da década.

thewho.jpgSaber onde começou a “viagem” do Britpop é uma pergunta cuja resposta varia da pessoa a quem se pergunta. Muitos dirão que foi em 1993 com Suede. Outros, em 1989 com The Stone Roses, outros em 1984 com The Smiths. Para outros, tudo remonta aos longínquos anos 60, era do British Invasion. Grupos como os Beatles, Rolling Stones ou os The Who lideravam um inédito ataque à tabela Hot100 americana, um processo que tinha sido iniciado pela obra prima produzida por Joe Meek, o hit de 1962 Telstar dos Tornados (onde figurava George Bellamy – o pai de Matt Bellamy dos Muse). Além do som, que ainda serve como base a grande parte do que é feito actualmente, a imagem deixada seria outro dos contributos, com o uso liberal da bandeira do Reino Unido e a aspecto Mod a ficarem como uma das imagens de marca da música Britânica.

Os anos 70 eram dominados pelas bandas de estádio com concertos bombásticos como os Pink Floyd e os Led Zeppelin, o Glam Rock de David Bowie ou Bryan Ferry ou pelo Punk dos Sex Pistols, Clash e The Damned. No entanto, seria da ressaca do punk que iria surgir a maior banda da segunda onda de influências. 4 de Junho 1976, os Sex Pistols tocam no Free Trade Hall de Manchester, um concerto que iria marcar os anos seguintes. Bandas como os Joy Division/New Order e os Chameleons iriam fazer parte da primeira vaga de músicos independentes influenciados pelo punk, mas o mundo iria esperar por 1982 para ver a que se seria uma das maiores bandas da década: thesmiths.jpgOs Smiths. Formados por Morrissey e o guitarrista Johnny Marr, com Andy Rourke no baixo e Mike Joyce na bateria, a banda apoiava-se fundamentalmente no carisma e a capacidade inata de Morrissey em escrever letras sobre alienação, à primeira vista algo depressivas mas com um enorme senso de humor atrás (o que leva que ainda hoje existam sites onde as letras são analisadas detalhe a detalhe e o verdadeiro sentido de músicas como How Soon is Now ou Asleep discutido) e a capacidade melódica de Johnny Marr. A sua primeira presença na BBC, no mítico Top Of The Pops, apresentava a banda ao resto do país, não só a figura carismática de Morrissey a abanar um ramo de gladíolos mas também a guitarra (embora em playback) de Johnny Marr. Da colaboração dos dois iriam sair alguns dos melhores álbuns dos anos 80 como Meat is Murder e The Queen Is Dead, até que as tensões entre ambos e com Joyce e Rourke (que chegou a ser despedido por consumo de drogas e readmitido antes de The Queen Is Dead) levavam ao final da banda em 1987.

Ao mesmo tempo, um novo tipo de som aparecia de Manchester: combinando o pop-rock inspirado pelas guitarras de Johnny Marr com os sons electrónicos importados de Detroit, Nova Iorque e Chicago para clubes nocturnos como a Haçienda. Nascia Madchester, alimentada pelas pastilhas sintéticas de Escstasy que mantinham a festa acesa até altas horas da noite. stoneroses.jpgEntre bandas como os Happy Mondays e os Inspiral Carpets, uma destacou-se: os Stone Roses, que contavam com Ian Brown, que apesar de não ser um vocalista brilhante, era um verdadeiro showman, ajudado pelo primeiro “discípulo” (apesar de ser um ano mais velho) de Marr, John Squire, e com uma secção de ritmo movida por Mani no baixo e Reni na bateria. A fórmula era simples: dar ao ouvinte algo que ouvir e algo que dançar, tudo no mesmo disco, tudo na mesma música. E resultava: conseguia entrar no Top 10 Britânico e até fazer boa figura nos tops americanos (impulsionada pela inclusão da música de referência da banda, Fools Gold), transformando-se com o passar dos anos num dos álbuns de referência não só da década como da música Britânica em geral com músicas como Waterfall, Made of Stone, I Am The Ressurection ou a faixa de abertura, I Wanna Be Adored:

nme92.jpg Ao mesmo tempo que os discos dos Stones Roses, Happy Mondays e Primal Scream eram remisturados pelos especialistas do Acid House, um dos ícones dos anos 80 caía: Morrissey, até então fortemente apoiado pelo NME durante os Smiths e na sua carreira a solo. O motivo: acusações de racismo e xenofobia, culminadas pela fotografia de capa, onde Morrissey no palco do Madstock! (palco de reunião do grupo ska Madness, conhecidos por algumas ligações e simpatias a movimentos skinhead de extrema direita) aparece envolto na bandeira Britânica com a legenda “Acenar a bandeira ou brincar com o desastre?“. Pouco depois, o “combustível” que movia Madchester começava a “gripar” o motor, com mortes dentro e fora da Haçienda provocados pela luta dos gangs pelo controlo do mercado de Ecstasy. Os Stone Roses envolviam-se numa luta com a Silvertone, ficando anos sem gravar, e os Happy Mondays refugiavam-se nas Barbados para gravar o novo álbum, mas ao resultado faltava a qualidade e a produção cuidade de outros tempos (bem patente pela crítica do Melody Maker ao disco Yes Please! – um seco “no thanks“), e a juntar às perdas colossais de dinheiro da Haçienda e conflitos internos nos New Order, em Novembro de 1992 Tony Wilson aparecia frente às câmeras para dar as notícias: a Factory Records fechava.

As publicações musicais da especialidade começavam a sentir que após a British Invasion, seria a sua vez de serem invadidos. Os culpados: Eddie Vedder dos Pearl Jam e Kurt Cobain dos Nirvana. O Grunge ameaçava tornar-se a nova referência musical para um país que havia virado as costas a um dos seus ídolos, visto todo um movimento desintegrar-se numa nuvem de anfetaminas e perdido um dos seus símbolos. O movimento alternativo emergente, o shoegaze, não era viável pelos seus músicos não terem o carisma de um Morrissey ou um Ian Brown – bem pelo contrário. Se o país não iria perder a sua identidade, precisava de algo, ou alguém. Esse algo era um banda de Londres formada anos antes de seu nome Suede e esse alguém o seu vocalista, Brett Anderson. Com uma formação que incluía Mat Osman, Justine Frischmann (então namorada de Brett Anderson) que não iria passar de 1991 no alinhamento da banda, e mais tarde o guitarrista Bernard Butler e o baterista Simon Gilbert a substituir definitivamente a drum machine e Mike Joyce, que tinha feito algumas sessões com a banda. Ainda antes da saída do single de estreia The Drowners, a Melody Maker chamava-os a banda mais excitante no Reino Unido, muito graças a Brett Anderson: com um visual andrógino inspirado por estrelas como David Bowie ou Bryan Ferry, uma voz característica e letras com uma sexualidade sombria, acompanhadas por uma sonoridade muito inspirada pelo Glam e as melodias de guitarra de Johnny Marr.

select93.jpgO que apenas um ano antes havia sido motivo de afronta na capa do NME era agora motivo de orgulho na Select de Abril de 1993. Com o título “Yanks go home!“, Brett Anderson aparece sobreposto à bandeira, numa capa que o próprio ia mais tarde admitir odiar, e a Union Jack passou a ser o símbolo de um país à busca da próxima grande referência musical. O caminho para esta capa começou meses antes: apesar de ainda estarem a preparar o seu primeiro LP, o NME exigia a presença dos Suede nos Brit Awards, e assim foi, apresentados em palco como “os já lendários Suede“. Perante uma audiência conservadora (que no ano anterior já havia ficado chocada com o bombástico adeus dos KLF à indústria), tocavam Animal Nitrate, um dos melhores exemplos da sexualidade pervertida e sombria mencionada anteriormente que marcava as letras da banda. Na semana seguinte, chegava às lojas no sétimo lugar, e ainda no mesmo ano, o álbum Suede, com uma capa que levantou polémica (mas que Anderson dizia que se quisesse polémica, ter-lhe-ia chamado “I Fuck Dogs“) chegava igualmente às lojas, tornando-se no disco mais rapidamente vendido até então, e conquistando o importante Mercury Prize, sucedendo a Screamadelica dos Primal Scream. Começava o Britpop.

Por essa altura, alguém dizia “se o punk era para se livrarem dos Hippies, eu vou livrar-me do grunge“. Esse alguém é Damon Albarn, vocalista dos Blur. A banda foi a que teve o percurso mais interessante, tendo começado como Seymour em 1989 com Albarn e Graham Coxon (guitarra) e Dave Rowntree (bateria). Atraíndo as atenções como uma das bandas de art-rock emergentes só conseguiu o tão ambicionado contrato discográfico após Alex James (baixo) juntar-se ao grupo, e alterado o seu nome para Blur. Tal como os Suede, a banda nessa altura era parte da Scene That Celebrates Itself de Camden Town, e isso reflectia-se no som de Leisure, a meio caminho entre o shoegaze (Sing) e Madchester (There’s No Other Way). O movimento decisivo para a banda seria dado no regresso de uma tour pelos Estados Unidos, onde Albarn havia ficado decidido a combater as influências da cultura americana no Reino Unido, já que tal como Morrissey escrevia anos antes em Panic, “Because the music that they constantly play // It says nothing to me about my life“. noeldamon.jpgEstavam abertas as portas para Modern Life is Rubish, outro dos álbuns da primeira vaga do Britpop. Ao mesmo tempo, uma nova banda da mesma terra que os Smiths e os Stone Roses começava a emergir. Com Paul Arthurs (guitarra rítmica), Paul McGuinan (baixo) e Tony McCarroll (bateria), os Oasis viviam acima de tudo pela relação tempestuosa entre o guitarrista Noel Gallagher e o seu irmão mais novo Liam Gallagher, que parecia ser um aspirante a Ian Brown (imitando o seu visual e pose em palco) com influências de John Lennon. A banda iria aperfeiçoar o som sob a direcção de Noel Gallagher, e com o mesmo sentimento de oposção ao grunge (o terceiro single da banda, Live Forever, é uma resposta ao pessimismo do grunge, mais precisamente a música de 1992 dos Nirvana I Hate Myself And Want To Die), apesar de Liam Gallagher considerar que Kurt Cobain era o único letrista contemporâneo ao seu nível, estavam prontos para entrar na primeira vaga do Britopop com o selo da Creation.
Mas em 1994, a tarefa iria ficar mais simples: o movimento grunge começava a implodir sob o peso do mediatismo. Diversas mortes por overdose e suicídios, o mais badalado de todos o de Kurt Cobain, efectivamente reduziam o número de bandas e colocavam o grunge sobre uma luz negativa. Mesmo assim, os Suede iriam tropeçar quando pouco depois do final da gravação de Dog Man Star, com a tensão entre Brett Anderson e Bernard Butler a alcançar um ponto de ruptura, e o guitarrista abandonava a banda. Apesar das críticas unanimemente positivas, as vendas eram lentas, sendo isso atribuído ao som e letras mais sombrias do álbum em comparação com o anterior. Ao mesmo tempo que isso acontecia, os Blur lançavam Parklife, um álbum que tentava retratar a vida conforme vista pela classe média, bem patente em música como Parklife e Bank Holiday. Mais tarde no mesmo ano, os Oasis lançavam o seu álbum de estreia, Definitely Maybe. Era o começo de uma guerra entre as duas bandas: Apesar de liderarem o mesmo movimento, eram duas bandas completamente distintas, tanto em som, como em imagem ou postura, representando o Sul e o Norte de Inglaterra. A troca de palavras continuou por um ano, marcando a produção dos seus trabalhos seguintes, agendados para 1995.

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Durante meses, as bandas trocavam galhardetes em público: em Fevereiro, os Blur subiam ao palco para receber quatro dos cinco BRIT Awards para que haviam sido nomeados, e Damon Albarn aproveitava para “lembrar” a superioridade dos Blur frente aos Oasis, que mesmo assim saíram com o prémio para o melhor Breakthrough Act. O auge de popularidade do Britpop nos media iria acontecer meses mais mais tarde, no que o NME chamava de “Campeonato Britânico de Pesos Pesados“: a 14 de Agosto, os Oasis iriam lançar o single Roll With It, e a Food Records antecipava o lançamento de Country House uma semana para a mesma data. A imprensa, não só a musical, delirava com o acontecimento e dava-lhe destaque, chegando mesmo a abrir noticiários. Após uma semana, os Blur conseguiam a vitória, com uma vantagem de 58 mil unidades vendidas: 274 mil contra os 216 mil do disco dos Oasis.

Os Blur apareciam na MTV a gozar com Roll With It, e numa declaração que levantou polémica, Noel Gallagher dizia que queria que “o Damon e o Alex apanhem SIDA e morressem“. No entanto, seria a última vez que os Blur iriam sair por cima. The Great Escape, lançado em Setembro, entrou tal como esperado para o topo da tabela com mais unidades vendidas que os restante nove álbuns. O sorriso de Albarn iria durar até que os Oasis alcançavam níveis estratosféricos com (What’s the Story) Morning Glory? com vendas acima das 300 mil unidades na primeira semana. Antes, dizia-se que os únicos pontos comuns entre as duas bandas eram a incapacidade de entrar no mercado americano: a história mudava, com o álbum dos Blur a quedar-se por um pouco honroso 150º lugar, enquanto os Oasis chegavam ao 4º lugar, vendendo no total quase 20 milhões de unidades do disco impulsionado por músicas como Wonderwall ou Don’t Look Back In Anger. E nos BRIT Awards de 1996, eram os Oasis a esmagar a concorrência, a levar os prémios de melhor álbum, banda e video, enquanto os Blur, apesar de terem vencido o “campeonato de pesos pesados”, perdiam o prémio de melhor single para os Take That e recebiam a resposta às provocações na edição anterior – Parklife passava a Shite-life.

pulp.jpgA edição desse ano dos BRITs foi marcada por outro incidente: durante a performance de Michael Jackson, que contava com uma elaborada coreografia com dezenas de crianças ao som de Earth Song, Jarvis Cocker num protesto espontâneo entrava pelo palco dentro, e gesticulava na direcção do cantor americano em protesto contra a “actuação messiânica” do mesmo. Formados ainda no final dos anos 70, os Pulp iriam apenas lançar três álbuns até 1991, entre diversas trocas de membros da banda, e apenas seria nos anos do Britpop que iriam obter algum reconhecimento, primeiro com His N’ Hers (produzido por Ed Buller, conhecido pelo seu trabalho com os Suede) em 1994 com direito a um lugar no Top 10, e depois o primeiro número um com Different Class, disco que dava à banda o direito a reclamar o Mercury Prize de 1996, oferecendo ao mesmo tempo algumas das suas músicas mais conhecidas, como I Spy, Disco 2000 ou Common People:

Common People permanece como um dos melhores exemplos do que são os Pulp paraa maior parte dos seus fãs: uma mistura do pop-rock contemporâneo misturado com sons synthpop dos anos 80 como os conterrâneos The Human League, uma letra a seguir uma narrativa da perspectiva da classe média (Jarvis Cocker mais tarde dizia que a letra era uma versão embelezada de uma estudante grega que tinha conhecido na universidade) sempre à volta de temas como sexo e classes sociais, pautados com algum sarcasmo e humor seco tipicamente Britânicos.

No mesmo ano, das cinzas e das dúvidas sobre a saída de Bernard Butler iriam regressar os Suede (embora sem o fulgor com que haviam entrado quatro anos antes, relegados para segundo plano com o domínio dos Blur e Oasis), com o então adolescente Richard Oakes na guitarra e a adição do teclista Neil Codling. A Coming Up faltava o requinte glam dos dois primeiros álbuns, mas ganhava um som marcadamente mais pop que garantia mais um número um à banda, e de onde saía a que será a música mais conhecida da banda, Beautiful Ones.

O sucesso do movimento Britpop levava a que muitas outras surgissem na onda. Justine Frischmann saía da sombra de Brett Anderson e Damon Albarn e assumia-se como pretendente ao título de rainha do Britpop com o trabalho nos Elastica, tendo como maior rival Louise Wener dos Sleeper e Cerys Matthews dos Catatonia. Outras bandas como os Kula Shaker introduziam uma tira de psicadelismo ao trad rock base do Britpop, ou os Supergrass traziam influências de bandas como os Buzzcocks e do pop-rock dos anos 60 bem aparentes no seu breakthrough hit de 1995 Alright, considerado na altura uma “celebração de juventude” (com o refrão a começar com “We’re so young” e acabar com “Feel alright!” – o que levou a banda a deixar de tocar a música ao vivo no final da década).

Mas não eram só bandas novas que surgiam. Das duas correntes musicais que haviam continuado do final dos anos 80 algumas bandas seguiam o caminho do Britpop da mesma forma que os Blur: Ride, Lush, The Boo Radleys, The Charlatans, Inspiral Carpets (onde Noel Gallagher havia servido como roadie no final dos anos 80) haviam-se todas adaptado com mais ou menos sucesso aos sons modernos – curiosamente, eram os Stone Roses, uma das bandas que deu início ao movimento a não se adaptar aos tempos modernos, e após a resolução do conflito com a Silvertone, um segundo álbum (chamado Second Coming, um aceno à última faixa do álbum de estreia I Am The Ressurection) lançado em 1994 francamente mal recebido, apesar de ter melhorado a posição no top, e as temidas alterações de membros. Entre as adaptaçõees, um dos casos de maior sucesso eram os Verve, uma das últimas bandas a aparecer na onda da Scene That Celebrates Itself que anos mais tarde iria no seu álbum Urban Hymns lançar um dos hinos do movimento, Bittersweet Symphony.

manics.jpgAo mesmo tempo, apareciam bandas com um som fora da esfera “regular” do Britpop, mas que mesmo assim em alguns casos eram agrupados junto do movimento, casos dos norte-irlandeses The Divine Comedy (com um som pop sofisticado e dramático), Ash e os altamente polítizados Manic Street Preachers do País de Gales (ambos mais influenciados pelo punk e hard rock) ou os Cornershop (trazendo influências de música indiana ao rock Britânico). Até grupos ainda na mesma linha do rock mais electrónico como os Babylon Zoo ou os Republica, que conseguiam entrar nos tops de singles respectivamente com Spaceman (Janeiro de 1996) e Ready To Go (Julho do mesmo ano) eram colocados junto do movimento. A diversidade de origens do Britpop levou a que fosse possível identificar as bandas apenas pelo seu aspecto – os Suede, com o já referido visual glam actualizado para os anos 90, os Blur distinguiam-se pelo aspecto classe média Londrina em fim de semana, os Oasis exibiam um aspecto mais austero, típico do Norte do país, os Pulp seguiam o aspecto nerd chic do seu frontman Jarvis Cocker enquanto Gaz Coombes, dos Supergrass, era facilmente reconhecível pelas suas patilhas no melhor estilo George Best. Ponto comum da imagem de todas as bandas que alcançaram uma maior relevância: o carisma dos seus líderes. Tirando páginas dos “livros” que Morrissey e Ian Brown tinham escrito anos antes, estes músicos captavam a imaginação de uma imprensa musical que, após nos anos 80 ter-se mantido na vanguarda da nova música, estava a mostrar sinais crescentes de uma “tabloidização” e de um “culto da estrela” – o ambiente ideal para relatar as noites embriagadamente loucas dos Blur ou as “bocas” dos irmãos Gallagher para outras bandas (para não falar dos seus desentendimentos em palco). O lado mais negro desta fixação pela imagem seria visível em projectos como os Menswear, uma banda que não fosse o seu visual cuidadosamente tratado, muito dificilmente seriam lembrados mais de 10 anos após a sua curta existência ter terminado.
knebworth.jpgAinda em 1996, os Oasis organizavam um concerto gigantesco em Knebworth. Até aí, apesar da popularidade das bandas, o fenómeno era visto essencialmente um negócio das editoras independentes de pequena dimensão (mas que fez de algum dos seus músicos milionários instantâneos), mas o sucesso deste evento iria abalar a estrutura: um em cada vinte Britânicos queriam estar presentes. Uma lista de 7000 convidados. Após os dias 10 e 11 de Agosto de 1996, surgia a questão: Até que ponto a música independente podia ser alternativa? A resposta foram os 375 mil bilhetes que a banda esgotava para dois dias de concertos. Assim, em 1997, as coisas mudavam. Sob a orientação de Graham Coxon, os Blur lançavam o álbum homónimo, com diversas alterações ao nível sonoro. A banda descolava-se do Britpop e fazia uma aproximação a um rock alternativo mais vago e próximo de influências americanas, conseguindo o seu grande hit global com Song 2 – segundo muitos, uma paródia do grunge que Albarn dizia querer acabar anos antes. Ao mesmo tempo, os Oasis lançavam Be Here Now, com a relação dos irmãos Gallagher a deteriorar-se a um ritmo alucinante. A crítica torcia o nariz, os fãs diziam “mais do mesmo”, e as bandas que surgiam na esteira dos Suede, Blur, Oasis ou Pulp não tinham o mesmo peso nem originalidade. trainspotting_poster.jpgAo mesmo tempo, as Spice Girls consolidavam o sucesso obtido com o seu primeiro álbum transformando-se na maior sensação pop do final da década, e os Radiohead, que haviam sido largamente ignorados durante a primeira metade da década, lançavam o aclamado OK Computer. Socialmente, o New Labour levava o jovem Tony Blair ao cargo de primeiro ministro, quebrando anos de cinzentismo conservador Tatcheriano. O Britpop, um movimento essencialmente ligado ao universo da música dava lugar ao mais abrangente Cool Britannia – um movimento que, tal como o nome indicava, celebrava o orgulho na imagem e cultura pop britânica, desde a adaptação do livro de Irvine Welsh Trainspotting (um relato da sub-cultura de heroína em Edimburgo no início dos anos 90) até até a um interesse renascido na moda e cultura Mod dos anos 60.

O século XX estava a acabar, e a música que encerrava Head Music, o 4º album dos Suede, era o reflexo do Britpop: There’s A Crack In The Union Jack, e assistia-se à subida das carreiras a solo de membros de boysbands como Ronan Keating ou Robbie Williams, boy/girlbands como as Spice Girls, All Saints, B*Witched, Westlife, 5ive ou o regresso da música de dança aos tops. Os Blur afastavam-se cada vez mais da sua matriz Britpop com 13, e até os Oasis iriam fugir ao formato um ano mais tarde em Standing In The Shoulder Of Giants. O Britpop, efectivamente, estava morto – tal como a Creation Records, casa dos Oasis e diversas outras bandas alternativas nos 16 anos anteriores. Em 2002, Graham Coxon saía do estúdio durante as gravações de Think Tank para não mais voltar, marcando o ponto final dos Blur. Ao mesmo tempo, os Suede lançavam A New Morning (sem Neil Codling), mas já muito longe até da popularidade dos tempos de Coming Up, a recepção pouco calorosa ditava o adeus aos palcos da banda em 2003, primeiro numa série de cinco concertos no ICA em Londres, cada noite dedicada a um álbum, e finalmente num concerto de duas horas e meia em Dezembro. Mesmo assim, iriam sobreviver ao grosso das fileiras do género, como os Elastica (2001), Lush (1998, na práctica dois anos antes), The Verve (1999), Sleeper (1998) e mesmo os Pulp (num hiato com termo indefinido desde 2002).
Se o tempo do Britpop acabava, a música independente continuava. Era o tempo para heróis. O final dos anos 90 pós-Knebworth era uma altura onde não havia grande espaço para mais bandas, num mercado saturado por bandas influenciadas pelo o Britpop ou já da vaga mais tardia como os Coldplay, Toploader, Travis ou os Stereophonics, que em geral conseguiam um sucesso limitado a um álbum ou single. libertines.jpgDe Londres, iria aparecer a banda que iria dar uma nova vida ao Britpop. Com Wilde do lado dos dois, se Morrissey tinha Johnny Marr, Pete Doherty tinha Carl Barât. Estes eram a base dos The Libertines, uma banda que durante a sua existência viveu em simbiose com o NME: ou eram as excelentes músicas, parte de um garage rock revival no início do milénio liderado pelos Strokes, com letras com o toque britânico de Doherty, ou eram as histórias da relação entre ambos, desde os relatos do abuso de álcool e drogas, o habitual innuendo homossexual entre ambos até à mítica história do arrombamento do apartamento de Barât após um desentendimento com Doherty. Ainda assim, em 2004, voltava a aparecer um ar de Britpop, com a reunião de dois dos primeiros ícones da era: Brett Anderson e Bernard Butler re-encontravam-se em palco como os The Tears, mas da reunião iria sair apenas um álbum (Here Come The Tears) e a tensão entre ambos acabava por relegar Anderson para uma carreira a solo.

Após a ressaca do final do Britpop e ridicularização do Cool Britannia, os Libertines, apesar da sua separação em 2004, tinham sido o catalisador de uma nova onda de bandas com um som essencialmente britânico, abrindo espaço para bandas como os Kaiser Chiefs, Editors ou White Rose Movement (com uma sonoridade com base no Post-Punk/New Wave e Punk), Franz Ferdinand (uma banda indie-pop na longa linha do art-rock das ilhas), Kasabian (uma mistura de Oasis com Primal Scream), Arctic Monkeys (os novos reis da música independente Britânica) ou uma nova geração de música de guitarra orientada para dança que conta com os Klaxons ou os The Sunshine Underground.

Neste momento, os Oasis preparam o seu sétimo álbum de originais, enquanto Damon Albarn consegue arrecadar o título de álbum do ano no Guardian com o seu novo projecto The Good, The Bad and The Queen. Embora a feroz rivalidade entre ambos (que segundo Noel Gallagher foi essencialmente uma criação da editora dos Blur) tenha diminuido com os tempos e agora é relativamente fácil encontrar alguns elogios de parte a parte, Albarn ainda diz ser um rival dos Gallaghers, porque se assim não for, o Britpop morre. Se assim é, quem somos nós para duvidar?

Recomendações
Influências

  • Revolver (Beatles, Parlophone 1966)
  • The Kinks are the Village Green Preservation Society (The Kinks, Pye 1968)
  • The Queen Is Dead (The Smiths, Rough Trade 1986)
  • The Stone Roses (The Stone Roses, Silvertone 1989)

Britpop

  • Suede (Suede, Nude 1993)
  • Parklife (Blur, Food 1994)
  • Definitively Maybe (Oasis, Creation 1994)
  • Elastica (Elastica, Deceptive 1995)
  • Different Class (Pulp, Island 1995)
  • (What’s The Story) Morning Glory (Oasis, Creation 1995)
  • Coming Up (Suede, Nude 1996)
  • Blur (Blur, Food 1997)
  • Urban Hymns (The Verve, Hut 1997)
  • In It For The Money (Supergrass, Parlophone 1997)

Bandas paralelas

  • The Holy Bible (Manic Street Preachers, Epic 1994)
  • The Bends (Radiohead, Parlophone 1995)
  • 1977 (Ash, Edel 1996)
  • Casanova (The Divine Comedy, Setanta 1996)

Pós Britpop

  • Without You I’m Nothing (Placebo, Virgin 1998)
  • Up The Bracket (The Libertines, Rough Trade 2002)
  • Kasabian (Kasabian, Arista 2004)
  • Franz Ferdinand (Franz Ferdinand, Domino 2004)
  • Employment (Kaiser Chiefs, B-Unique 2005)

Leitura

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Posted Quinta-feira, 13 Dezembro 2007 by Silva in Musica

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